Aeronave agrícola supera 1.700 unidades produzidas; etanol pode reduzir em até 50% o custo operacional, enquanto fabricante avança em mercados como Argentina e Paraguai
Por Jornal Campo Aberto
GOIANÁPOLIS (GO) — O Ipanema, aeronave agrícola da Embraer com mais de quatro décadas de operação, está entrando em uma nova fase de expansão internacional enquanto o uso de etanol reforça sua competitividade em um mercado pressionado por custos operacionais e pela busca por alternativas aos combustíveis fósseis.
O modelo já ultrapassou 1.700 aeronaves produzidas, das quais aproximadamente 1.100 permanecem em operação, algumas com mais de 40 anos. Em entrevista ao Jornal Campo Aberto durante o Congresso AvAg, Sany Onofre, Diretor de Negócios e Produção e líder da aviação agrícola da Embraer, detalhou a evolução do Ipanema, a utilização do etanol e a estratégia da companhia para ampliar sua presença em outros mercados.
Segundo Onofre, entre 700 e 800 aeronaves atualmente em operação utilizam etanol. Cerca de 500 unidades foram produzidas de fábrica com essa configuração, enquanto operadores também podem realizar a modificação de aeronaves originalmente equipadas para operar com gasolina de aviação.
OS NÚMEROS DO IPANEMA
- +1.700
- aeronaves produzidas
- ~1.100
- aeronaves ainda em operação
- 700–800
- aeronaves em operação com etanol
- 30%–50%
- redução estimada no custo operacional com etanol
- +40 anos
- de evolução da plataforma
Etanol reduz custo da operação
O principal argumento econômico para o Ipanema a etanol está no custo operacional.
Segundo Onofre, a utilização do combustível pode proporcionar uma economia de aproximadamente 30% a 50% no custo de operação da aeronave, dependendo das condições de utilização.
A diferença é relevante em uma atividade na qual combustível, manutenção e produtividade têm impacto direto sobre o resultado financeiro do operador.
O etanol também reduz a exposição às oscilações dos combustíveis fósseis. De acordo com Onofre, o combustível é uma das principais vantagens competitivas do Ipanema diante da gasolina de aviação, especialmente em um cenário de pressão sobre os preços do petróleo.
A tecnologia, segundo o executivo, foi desenvolvida originalmente há mais de 20 anos com foco em produtividade e redução de custos operacionais. A dimensão ambiental ganhou relevância posteriormente, à medida que sustentabilidade passou a ocupar espaço maior nas decisões da indústria.
Para Onofre, o produto combina três características: confiabilidade, sustentabilidade e rendimento.
Uma plataforma de mais de 40 anos
A longevidade do Ipanema é um dos principais ativos da aeronave.
A Embraer já produziu mais de 1.700 unidades do modelo e mantém aproximadamente 1.100 em operação. Algumas aeronaves têm mais de quatro décadas de uso, um indicador da durabilidade da plataforma e de sua capacidade de incorporar novas tecnologias ao longo do tempo.
Segundo Onofre, a evolução do modelo não depende necessariamente de uma mudança completa de projeto.
A Embraer continua incorporando tecnologias relacionadas a segurança, produtividade e custos, mantendo uma plataforma conhecida pelos operadores.
Essa estratégia prolonga o ciclo de vida de uma aeronave que se tornou um dos principais produtos da aviação agrícola brasileira.
Expansão internacional também busca reduzir riscos
A internacionalização do Ipanema tem uma dimensão que vai além do aumento das vendas.
Segundo Onofre, a presença em diferentes mercados agrícolas permite à Embraer diversificar receitas e reduzir a exposição aos ciclos econômicos e produtivos de um único país.
A agricultura é uma atividade sujeita a ciclos, e esses movimentos podem ocorrer em momentos diferentes entre Brasil, Argentina, Paraguai e outros mercados.
Para a fabricante, distribuir a presença comercial entre diferentes países reduz a concentração de riscos e amplia o mercado potencial do Ipanema.
Argentina, Paraguai, Colômbia e Uruguai estão entre os mercados latino-americanos considerados pela companhia.
Paraguai já está certificado
No Paraguai, o Ipanema já possui certificação da autoridade de aviação local para operar.
Segundo Onofre, as aeronaves vendidas no país já podem sair com a certificação necessária para operação.
Na Argentina, o processo de certificação está em andamento. O executivo classificou a etapa como um processo regulatório que pode levar alguns meses, dependendo das exigências da autoridade local, enquanto a Embraer afirma possuir as comprovações técnicas necessárias para a operação segura da aeronave.
A expansão argentina ganhou um marco adicional há poucas semanas, segundo Onofre: o primeiro voo de um Ipanema movido a etanol realizado no país, utilizando etanol produzido por uma empresa argentina.
O episódio representa mais do que a entrada de uma aeronave em um novo mercado. Mostra a possibilidade de integrar a tecnologia brasileira à própria cadeia de combustível do país de destino.
Infraestrutura é o próximo desafio
A expansão internacional, porém, não depende apenas da venda das aeronaves.
A operação exige uma cadeia formada por mecânicos especializados, oficinas, manutenção e redes de abastecimento.
Esse é um dos pontos que a Embraer identifica como necessários para ampliar o uso do Ipanema em novos mercados.
O desafio também existe dentro do Brasil.
À medida que novas fronteiras agrícolas avançam, a aviação precisa acompanhar a expansão da produção com infraestrutura capaz de sustentar os operadores.
Para Onofre, em determinadas regiões a aeronave pode complementar as operações terrestres e contribuir para aumentar a produtividade. Mas o ganho depende de uma estrutura capaz de acompanhar o equipamento.
A estratégia vai além da aeronave
A Embraer vê a expansão da aviação agrícola como um movimento que envolve toda uma cadeia econômica.
A chegada de novas aeronaves cria demanda por profissionais especializados, oficinas, abastecimento, manutenção e outros serviços necessários à operação.
Essa estrutura ganha ainda mais importância quando a aeronave é deslocada para regiões distantes dos grandes centros.
Na visão da companhia, entregar uma aeronave significa também criar as condições para que o operador consiga utilizá-la de forma eficiente ao longo de sua vida útil.
Uma tecnologia brasileira ganha escala regional
O Ipanema é produzido em série com capacidade de operar com etanol há mais de 20 anos. O que começou como uma solução voltada principalmente à produtividade e à redução de custos ganhou uma nova dimensão à medida que sustentabilidade e eficiência energética passaram a ocupar espaço maior nas decisões do setor.
Agora, a Embraer tenta transformar essa experiência em uma oportunidade de expansão regional.
A combinação é estratégica: uma plataforma com mais de quatro décadas, aproximadamente 1.100 aeronaves ainda em operação, centenas de unidades utilizando etanol e novos mercados em processo de abertura.
O desafio está em construir a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento.
E, para a Embraer, o argumento final continua sendo econômico.
“Fechar a conta no azul não é fácil para nenhum setor”, disse Onofre ao comentar a vantagem do etanol para os operadores.
É justamente nessa equação entre custo, produtividade, confiabilidade e sustentabilidade que a fabricante aposta para levar o Ipanema além das fronteiras brasileiras.
JORNAL CAMPO ABERTO | COBERTURA ESPECIAL CONGRESSO AVAG



