
Líder mundial nas exportações de carne de frango, Brasil aposta em inovação, biosseguridade e eficiência para enfrentar desafios como falta de mão de obra, abertura de mercados e combate à desinformação
A avicultura brasileira ocupa posição de destaque no cenário mundial. O Brasil é líder global nas exportações de carne de frango e está entre os maiores produtores do planeta, resultado de um sistema produtivo baseado em tecnologia, melhoramento genético, rigor sanitário e integração entre produtores, indústria e pesquisa.
Ao mesmo tempo em que amplia sua presença no mercado internacional, o setor enfrenta novos desafios, como a escassez de mão de obra, as exigências sanitárias dos países importadores, a abertura de novos mercados e o combate à disseminação de informações falsas sobre a produção de frangos.

Esses temas foram discutidos pelo médico veterinário Ariel Antônio Mendes, uma das maiores referências da avicultura nacional, durante entrevista ao programa Hora da Prosa, do Jornal Campo Aberto.
Segundo ele, a competitividade brasileira foi construída ao longo de décadas de investimentos em ciência e inovação.
“O Brasil exporta qualidade e sanidade. Nossa avicultura evoluiu continuamente porque precisou atender às exigências dos mercados mais rigorosos do mundo.”
Professor titular aposentado da Unesp de Botucatu, Ariel Mendes preside a FACTA (Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Avícolas), integra o Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e atua há mais de 40 anos acompanhando a evolução da cadeia produtiva.

Por que a avicultura brasileira é uma das mais competitivas do mundo?
A resposta está na combinação entre genética, nutrição, biosseguridade, manejo e tecnologia.
O especialista explica que o Brasil desenvolveu um sistema altamente eficiente, capaz de produzir carne de frango com elevada qualidade sanitária, custos competitivos e reconhecimento internacional.
Atualmente, os produtos brasileiros chegam a mais de 150 países, sendo submetidos aos mais rigorosos controles sanitários do mundo.

Além da fiscalização realizada pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), o país recebe constantemente auditorias internacionais, fator que fortalece a credibilidade da proteína animal brasileira.
Brasil supera crise da Influenza Aviária e reforça confiança internacional
Um dos maiores testes recentes da avicultura nacional ocorreu em 2025, quando foi confirmado o primeiro foco de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade em uma granja comercial.
Segundo a ABPA, a rápida atuação conjunta entre governo e setor produtivo permitiu controlar o foco em apenas 34 dias, restabelecendo o reconhecimento sanitário do Brasil junto à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).
Para Ariel Mendes, esse episódio demonstrou a maturidade técnica da cadeia produtiva brasileira.
“O país mostrou capacidade de resposta rápida, transparência e eficiência sanitária.”
O frango exportado é o mesmo consumido no Brasil?
Uma das principais curiosidades dos consumidores foi esclarecida pelo especialista.
Segundo Ariel Mendes, não existe diferença de qualidade entre o frango vendido no mercado interno e aquele exportado.
O que muda são apenas características comerciais, como peso da ave, tipo de corte ou preferências gastronômicas dos países compradores.
“O consumidor brasileiro consome exatamente o mesmo padrão de qualidade enviado aos mercados internacionais.”
Uso de hormônio em frangos é mito, reforça especialista

Entre os temas que mais geram dúvidas entre consumidores está o suposto uso de hormônios na criação de frangos.
Ariel Mendes foi categórico ao afirmar que essa prática não existe.
Segundo ele, além de ser proibida pela legislação brasileira, a utilização de hormônios seria tecnicamente inviável e economicamente impossível na produção moderna.
O crescimento acelerado das aves é consequência de décadas de seleção genética, avanços na nutrição animal, melhoria das instalações e aperfeiçoamento do manejo.
“O frango moderno cresce mais porque a genética evoluiu e porque hoje conhecemos muito melhor suas necessidades nutricionais.”
Falta de mão de obra é hoje o maior desafio da avicultura
Se no passado o principal desafio era o custo da alimentação das aves, atualmente o setor enfrenta outro problema: encontrar trabalhadores.
Segundo Ariel Mendes, milhares de vagas permanecem abertas nas granjas e frigoríficos brasileiros.
Esse cenário acelerou os investimentos em automação, inteligência operacional e equipamentos capazes de reduzir a dependência de mão de obra.
Mesmo assim, algumas atividades continuam exigindo trabalho especializado, principalmente os cortes destinados aos mercados asiáticos.
Milho e soja deixam de ser preocupação imediata
O especialista avalia que o avanço da produção agrícola brasileira trouxe maior segurança para o abastecimento da avicultura.
A expansão da produção no Matopiba e o crescimento da produtividade reduziram o risco de falta de milho, principal componente da alimentação das aves.
Além disso, a produção de etanol de milho ampliou a oferta do DDG, coproduto utilizado na alimentação animal.
Exportações fortalecem toda a cadeia produtiva

Embora seja líder mundial nas exportações, aproximadamente 65% da produção brasileira permanece no mercado interno, garantindo o abastecimento nacional e tornando a carne de frango a proteína animal mais consumida pelos brasileiros.
Os embarques internacionais, entretanto, são fundamentais para dar escala ao setor e agregar valor à produção.
Cada mercado possui preferências específicas.
Enquanto alguns países importam peito, outros priorizam coxas, asas, pés ou miúdos, permitindo o aproveitamento integral das aves e aumentando a rentabilidade da cadeia produtiva.
Avicultura brasileira movimenta bilhões e gera milhões de empregos

A força econômica da cadeia avícola também impressiona.
Segundo a ABPA, seus associados representam mais de 90% da produção nacional de carne de frango, respondem por mais de 95% das exportações do setor e integram uma cadeia responsável por cerca de R$ 205 bilhões em Valor Bruto da Produção.
O segmento gera mais de quatro milhões de empregos diretos e indiretos em todo o país.
Ciência, inovação e sustentabilidade definirão o futuro da avicultura

Para Ariel Mendes, o crescimento da avicultura brasileira continuará sustentado por três pilares: ciência, tecnologia e sustentabilidade.
A tendência é que genética, inteligência artificial, automação, biosseguridade, bem-estar animal e eficiência ambiental tenham papel cada vez mais importante para manter o Brasil como referência mundial na produção de alimentos.
Essa visão é compartilhada pela ABPA, que aponta a eficiência produtiva, a sanidade animal e a sustentabilidade como fatores decisivos para garantir a segurança alimentar global nas próximas décadas.
Avicultura brasileira segue como protagonista mundial
Mesmo diante de desafios econômicos, sanitários e logísticos, a avicultura brasileira demonstra capacidade de adaptação e inovação.

A combinação entre pesquisa científica, gestão eficiente, biosseguridade e competitividade mantém o Brasil como um dos principais fornecedores mundiais de proteína animal, reforçando seu papel estratégico na segurança alimentar e no agronegócio global.
Reportagem: Claudio Correia
Jornalista especializado em agronegócio, Cláudio Correia acompanha há décadas a evolução do setor agropecuário brasileiro, com atuação voltada à produção de conteúdo jornalístico sobre agricultura, pecuária, aviação agrícola, tecnologia, inovação e mercados. É fundador e editor do Jornal Campo Aberto e apresentador dos programas Hora da Prosa, ProsaCast e Agro no Ar, levando informação de qualidade ao produtor rural e aos profissionais do agro por meio de entrevistas, reportagens e análises com especialistas do Brasil e do exterior.


