Para Pedro Misael, consultor técnico da Global Parts, integração entre os diferentes elos da cadeia é fundamental para reduzir gargalos, antecipar demandas e fortalecer a segurança operacional
A aviação agrícola brasileira entra em uma nova fase de transformação, marcada não apenas pela evolução tecnológica das aeronaves, mas também pela necessidade de aproximar fabricantes, empresas de manutenção, distribuidores, operadores e produtores. Nesse cenário, o conceito de “aviação conectada” ganha espaço como estratégia para melhorar o fluxo de informações, antecipar demandas e aumentar a eficiência das operações.
A avaliação é de Pedro Misael, fundador da Global Parts e atualmente consultor técnico da empresa. Com 48 anos de experiência no setor aeronáutico, ele participou do ProsaCast, podcast do Jornal Campo Aberto, durante o Congresso da aviação agrícola, realizado em agosto.
Segundo Misael, um dos principais desafios históricos da aviação está justamente na circulação das informações entre os diferentes participantes da cadeia. Para ele, quando dados sobre manutenção, peças, boletins de serviço, disponibilidade de componentes e necessidades dos operadores não chegam de forma adequada à ponta, aumentam os riscos de atrasos, custos adicionais e dificuldades de planejamento.
“A falta de informação na aviação sempre foi uma coisa muito grande”, afirmou o consultor durante a entrevista.
A proposta da aviação conectada, na avaliação do especialista, é criar uma relação mais próxima entre quem fabrica, quem distribui, quem realiza a manutenção e quem efetivamente opera as aeronaves.
Informação como ferramenta de planejamento
Na aviação agrícola, tempo é um dos principais ativos. Uma aeronave parada durante o período operacional pode representar não apenas um custo de manutenção, mas também perda de produtividade e dificuldade para cumprir contratos e atender às necessidades das lavouras.
Por isso, Misael defende que o planejamento da manutenção e do abastecimento de peças seja feito com base em informações sobre as características de cada região e o comportamento da demanda.
A Global Parts, segundo ele, trabalha com unidades e estoques distribuídos estrategicamente pelo país para atender diferentes mercados. A estratégia considera também a sazonalidade da aviação agrícola, que influencia diretamente a procura por componentes e serviços de manutenção.
“A gente trabalha com estoque local para cada região”, explicou.
O objetivo é antecipar necessidades em vez de esperar que uma aeronave apresente um problema para, somente então, iniciar a busca por uma peça ou serviço.
Esse modelo também pode beneficiar fabricantes e distribuidores, já que informações mais precisas sobre a demanda permitem melhorar a programação de compras, importações e disponibilidade de componentes.
Manutenção vai muito além da oficina
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a complexidade da manutenção aeronáutica.
Para o consultor, a segurança operacional depende de uma cadeia estruturada, que envolve profissionais qualificados, equipamentos adequados, processos de qualidade, componentes homologados e cumprimento das especificações estabelecidas pelos fabricantes e pelas autoridades aeronáuticas.
Misael afirmou que a empresa vem investindo em qualificação, equipamentos e certificações para ampliar a capacidade de atendimento ao mercado brasileiro.
Entre os investimentos citados está a estrutura destinada à manutenção e ao suporte de motores e turbinas utilizados por aeronaves que operam no país.
O consultor também destacou a importância de aproximar profissionais brasileiros dos fabricantes internacionais. Na avaliação dele, essa conexão permite levar às empresas informações sobre problemas identificados em campo e, ao mesmo tempo, trazer para o mercado brasileiro atualizações técnicas e soluções desenvolvidas pelos fabricantes.
Componente correto também é segurança
Durante a entrevista, Misael chamou atenção para um aspecto que muitas vezes passa despercebido por quem está fora da atividade: a utilização de componentes adequados e dentro das especificações previstas para cada aeronave.
Segundo ele, peças e componentes aeronáuticos possuem critérios específicos de utilização, inspeção, manutenção e substituição. O cumprimento desses parâmetros é parte essencial da segurança operacional.
A discussão também envolve motores, hélices e outros sistemas submetidos a ciclos de operação e manutenção previamente estabelecidos.
Para o especialista, a ideia de que uma aeronave pode continuar voando indefinidamente apenas porque determinado componente ainda aparenta estar funcionando é equivocada.
“Uma máquina foi feita para trabalhar e ser lubrificada”, afirmou Misael, ao explicar que aeronaves e motores também estão sujeitos aos efeitos do tempo, da umidade, da oxidação e das condições de operação.
A recomendação, portanto, é que operadores sigam os procedimentos previstos nos manuais e nas normas aplicáveis, evitando interpretações que possam comprometer a segurança.
Combustível também entra na equação
Outro tema abordado no ProsaCast foi a qualidade dos insumos utilizados na operação.
Misael chamou atenção para a importância do combustível e dos lubrificantes no desempenho e na durabilidade dos motores. Segundo ele, problemas relacionados à qualidade ou à contaminação de combustíveis podem provocar danos aos sistemas e gerar custos elevados para os operadores.
O alerta reforça uma característica importante da aviação agrícola: a segurança não termina na oficina.
A qualidade de tudo aquilo que entra na aeronave — combustível, lubrificante, componentes e materiais — também faz parte do resultado final.
O desafio de manter a aeronave disponível
Na aviação agrícola, a disponibilidade da frota tem impacto direto sobre a atividade no campo.
O calendário agrícola não pode ser tratado da mesma maneira que uma operação convencional. Quando existe uma necessidade de aplicação, o fator tempo pode ser determinante para o resultado da lavoura.
É justamente por isso que a manutenção preventiva e o planejamento de estoques ganham importância.
De acordo com Misael, a procura por serviços e componentes apresenta forte sazonalidade. Em determinados períodos do ano, aumenta a entrada de aeronaves para manutenção, enquanto a proximidade da retomada das operações agrícolas exige que a frota esteja novamente disponível.
Esse movimento exige planejamento de estoque, mão de obra, equipamentos e capacidade de oficina.
“É um período que aumenta muito a manutenção”, explicou.
A esse cenário se soma outro fator relevante para o setor: a forte exposição da cadeia aeronáutica aos custos internacionais, especialmente em componentes e produtos importados.
Variações cambiais, prazos de importação e disponibilidade internacional podem interferir diretamente no custo e no tempo necessário para a manutenção.
Relação com a autoridade reguladora
A necessidade de maior integração também envolve os órgãos reguladores.
Durante a entrevista, Misael defendeu uma aproximação maior entre a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), empresas de manutenção, operadores e demais representantes do setor.
Na avaliação dele, a comunicação entre regulador e regulados precisa combinar ferramentas digitais com maior presença técnica em campo.
O consultor relatou situações em que processos de certificação e liberação de aeronaves, segundo sua experiência, teriam levado meses para serem concluídos.
Para ele, conhecer a realidade operacional das empresas pode contribuir para que procedimentos regulatórios sejam mais eficientes sem abrir mão dos requisitos de segurança.
“É hora de Brasília sair de Brasília e conhecer o Brasil e a realidade brasileira”, afirmou.
A crítica, segundo Misael, não representa uma defesa de flexibilização das normas de segurança, mas de maior proximidade entre quem estabelece ou fiscaliza os procedimentos e quem precisa aplicá-los diariamente.
Ele também reconheceu avanços na atuação da autoridade aeronáutica e defendeu a continuidade do diálogo entre o setor privado e o poder público.
Fabricantes mais próximos do campo
Uma das principais propostas apresentadas pelo consultor para os próximos anos é ampliar a presença dos fabricantes dentro do mercado brasileiro.
A Global Parts vem promovendo encontros com empresas internacionais para aproximar engenharia, manutenção e operadores.
A lógica é simples: se um problema aparece repetidamente no campo, a informação precisa chegar ao fabricante para que possa ser analisada e, quando necessário, gerar uma solução de engenharia.
Para Misael, essa troca permite transformar problemas identificados na operação em oportunidades de melhoria tecnológica.
“O que nós precisamos fazer é exatamente o que estamos fazendo: trazer o fabricante para cá”, afirmou.
A iniciativa também pode contribuir para reduzir o tempo de resposta diante de problemas recorrentes e melhorar a disponibilidade de componentes e soluções técnicas.
Próximos dez anos exigem mais conexão
A discussão ganha relevância em um momento simbólico para a aviação agrícola brasileira.
Em 2027, o setor deverá celebrar 80 anos da aviação agrícola no Brasil, marco que reforça a importância de discutir os próximos ciclos de desenvolvimento da atividade.
Para Misael, a próxima década deverá ser marcada por uma integração ainda maior entre tecnologia, manutenção, fabricantes, operadores, entidades representativas e órgãos reguladores.
Nesse cenário, a “aviação conectada” deixa de ser apenas uma expressão associada à tecnologia e passa a representar uma mudança de comportamento dentro da própria cadeia.
Mais informação compartilhada significa maior capacidade de planejamento. Mais planejamento pode significar menos tempo de aeronave parada. E uma manutenção melhor programada contribui para segurança, disponibilidade e eficiência operacional.
Aviação agrícola como ferramenta de produtividade
Durante a entrevista, Misael também defendeu a importância de ampliar o conhecimento da sociedade sobre a atividade.
O Brasil possui uma das maiores frotas de aviação agrícola do mundo e utiliza as aeronaves como ferramenta de apoio à produção agropecuária em diferentes regiões.
A velocidade de atendimento é um dos principais diferenciais da modalidade, especialmente em áreas extensas e em situações nas quais o tempo entre a identificação de um problema na lavoura e a aplicação de uma solução pode ser determinante.
Para o consultor, a atividade precisa ser compreendida a partir de sua evolução tecnológica e dos procedimentos de segurança adotados atualmente.
“A tecnologia chegou na aviação e melhorou muito”, resumiu.
A discussão, portanto, vai além da aeronave.
Envolve planejamento, manutenção, combustível, componentes, certificação, tecnologia, qualificação profissional, regulação e, principalmente, informação.
É nesse ponto que a proposta de uma aviação conectada encontra seu principal desafio: fazer com que todos os elos da cadeia tenham acesso à informação necessária para tomar decisões melhores, no momento certo.
E, para um setor que se prepara para completar oito décadas de história no país, essa conexão pode ser uma das ferramentas para construir os próximos dez anos da aviação agrícola brasileira.
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