Congresso em Goianápolis mostrou uma indústria em transição: mais conectada, orientada por dados e pressionada a provar que inovação pode significar produtividade, segurança e retorno sobre o investimento
Há uma mudança acontecendo nos céus sobre as lavouras brasileiras — e ela tem menos a ver com o tamanho dos aviões do que com a quantidade de informação que eles conseguem carregar.
Essa foi uma das mensagens mais importantes do Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, realizado de 18 a 20 de agosto em Goianápolis, Goiás. O encontro reuniu cerca de 200 marcas em uma área de aproximadamente 18 mil metros quadrados, com participantes de pelo menos 12 países. O evento também registrou recorde de trabalhos científicos apresentados.
Em um setor acostumado a medir sua força pelo número de aeronaves, horas de voo e hectares atendidos, os indicadores de competitividade estão começando a mudar.
Dados, automação, inteligência artificial, drones, sistemas de aplicação de precisão e qualificação profissional passaram a ocupar o centro da discussão. Não porque a aeronave agrícola esteja perdendo relevância, mas porque ela está deixando de ser apenas uma máquina de aplicação para se tornar parte de uma operação muito mais ampla de coleta, processamento e utilização de informação.
Essa transformação acontece em um dos maiores e mais sofisticados mercados agrícolas do mundo.
E coloca a aviação agrícola diante de uma pergunta que será cada vez mais difícil de evitar: quanto da tecnologia disponível hoje será capaz de se transformar em produtividade mensurável amanhã?
O tamanho deixou de ser suficiente
O Brasil já possui escala para ser protagonista.
O país encerrou 2025 com mais de 2,8 mil aeronaves e helicópteros agrícolas, segundo dados divulgados pelo Sindag, consolidando uma das maiores frotas aeroagrícolas do mundo.
O tamanho do agronegócio explica parte dessa posição. A agricultura brasileira trabalha com grandes extensões, diferentes culturas, janelas operacionais estreitas e condições climáticas que podem transformar uma decisão tomada pela manhã em um problema à tarde.
Isso cria espaço para uma ferramenta que consiga levar uma aplicação ao lugar certo, no momento certo.
Mas o crescimento da frota não conta toda a história.
O próximo ganho de eficiência deverá vir da capacidade de usar melhor cada aeronave, cada voo e cada aplicação.
É aí que entra a digitalização.
Sistemas de navegação, sensores, controle de aplicação, automação e plataformas de gestão estão transformando a operação aeroagrícola em algo mais próximo de uma atividade de alta precisão. O avião continua sendo fundamental, mas passa a funcionar dentro de uma cadeia tecnológica maior.
O movimento é semelhante ao que já ocorreu em outras partes do agronegócio. Máquinas agrícolas passaram a coletar dados. Pulverizadores passaram a registrar informações. Colheitadeiras passaram a medir produtividade. A gestão da propriedade começou a incorporar imagens de satélite, sensores e inteligência artificial.
Agora, a mesma lógica chega ao espaço aéreo sobre a lavoura.
O novo ativo é a informação
O debate da Agenda 2037, realizado na véspera do congresso, talvez tenha sido o melhor indicador de para onde o setor pretende caminhar.
Empresários, pilotos, fabricantes e pesquisadores foram divididos em grupos para identificar prioridades para os próximos dez anos. Das 20 prioridades levantadas, três apareceram nos quatro grupos: regulação, segurança jurídica e ambiente institucional; pessoas, formação e qualificação; e tecnologia, automação e modernização operacional.
A conclusão é mais importante do que parece.
O setor não está apostando que uma única tecnologia resolverá seus problemas.
A Agenda 2037 reconheceu que a transformação digital depende de três condições simultâneas: máquinas capazes, pessoas preparadas e um ambiente institucional previsível.
É uma combinação particularmente relevante para uma indústria intensiva em capital e altamente regulada.
O avanço da inteligência artificial pode ajudar a planejar operações, interpretar dados e melhorar decisões. Mas a tecnologia não elimina a necessidade de pilotos, gestores, técnicos e operadores capazes de entender o que os sistemas estão fazendo — e, principalmente, quando não confiar cegamente neles.
No novo modelo, o profissional deixa de ser apenas operador.
Passa a ser também gestor de informação.
Drones mudam a pergunta
Poucas tecnologias simbolizam melhor essa transição do que os drones.
Durante algum tempo, o debate do mercado foi apresentado como uma disputa: drones contra aviões.
A discussão em Goianápolis apontou para outra possibilidade.
Drones e aeronaves tripuladas podem ocupar espaços diferentes dentro de uma mesma arquitetura operacional.
Isso é relevante porque desloca a competição.
Se a tecnologia permitir combinar diferentes plataformas, o valor não estará necessariamente em possuir o equipamento mais novo, mas em saber qual plataforma utilizar, em qual área, em qual momento e com qual objetivo.
Essa lógica abre espaço para empresas mais orientadas a dados e gestão.
Também cria um desafio para fabricantes, operadores e reguladores: a indústria terá de evoluir de um modelo centrado em máquinas para outro baseado em sistemas.
A pergunta deixa de ser “qual aeronave você tem?” e passa a ser “o que sua operação consegue medir e entregar?”.
A tecnologia tem um problema chamado gente
O avanço tecnológico cria, entretanto, uma contradição.
Quanto mais sofisticados ficam os equipamentos, maior é a necessidade de profissionais preparados para operá-los.
Essa foi uma das razões pelas quais formação e qualificação apareceram entre os três consensos da Agenda 2037.
A questão é particularmente relevante em uma indústria que já enfrenta dificuldade para encontrar mão de obra especializada.
A preparação do congresso mostrou justamente essa preocupação. O Sindag ampliou a articulação com instituições como UFG, Senar e Senai para aproximar ensino, pesquisa, capacitação e empresas do setor.
É uma mudança de abordagem.
Em vez de tratar formação profissional apenas como uma necessidade operacional, a indústria começa a enxergá-la como infraestrutura para a inovação.
Uma aeronave equipada com sistemas sofisticados pode representar um investimento milionário. Sem uma equipe capaz de extrair valor dessa tecnologia, entretanto, parte desse investimento pode permanecer subutilizada.
A vantagem competitiva, portanto, estará cada vez menos na tecnologia isolada e mais na combinação entre equipamento e competência.
O custo da incerteza
Há ainda uma variável menos visível, mas potencialmente decisiva: regulação.
O eixo regulatório foi o mais intenso entre as prioridades levantadas na Agenda 2037, concentrando 30% dos 20 pontos inicialmente identificados.
Isso não significa que o setor esteja pedindo ausência de regras.
Significa que empresas que investem em aeronaves, sistemas digitais, drones e infraestrutura precisam saber quais serão as condições para operar esses ativos ao longo do tempo.
Essa previsibilidade ganha importância em um negócio no qual as decisões de capital são de longo prazo.
Uma aeronave não é comprada para uma única safra. Um sistema de automação não é implantado para uma temporada. Uma estrutura de manutenção exige anos para amortizar investimentos.
Quanto maior a incerteza sobre as regras futuras, maior a dificuldade de calcular retorno.
Para uma indústria que quer acelerar a modernização, previsibilidade regulatória pode ser tão importante quanto acesso à tecnologia.
A ciência deixou de estar nos bastidores
Outro sinal de maturidade apareceu longe dos estandes comerciais.
O Congresso Científico da Aviação Agrícola recebeu 25 trabalhos em sua edição de 2026 — o maior número desde sua criação, em 2019. As pesquisas trataram de temas como sustentabilidade, inovação, boas práticas, tecnologia de aplicação e drones.
Isso pode parecer pequeno diante dos milhares de hectares tratados todos os anos.
Não é.
Uma indústria que consegue transformar experiência operacional em pesquisa começa a construir uma base para medir aquilo que antes era apenas percebido.
Eficiência de aplicação, deriva, segurança, meteorologia e desempenho de equipamentos são temas que ganham outra dimensão quando podem ser comparados por meio de dados.
Isso também muda o relacionamento com a sociedade.
Quanto mais o setor consegue demonstrar seus resultados, menos precisa depender de argumentos genéricos para defender sua relevância.
Ciência passa a funcionar não apenas como ferramenta de inovação, mas também como instrumento de reputação.
A economia por trás da inovação
Existe, naturalmente, uma razão financeira para toda essa transformação.
O agronegócio brasileiro enfrenta um ambiente no qual custos de insumos, mão de obra, combustível, crédito e logística pesam cada vez mais sobre as margens.
Em um cenário assim, qualquer tecnologia precisa responder a uma pergunta simples:
quanto ela economiza ou quanto ela produz a mais?
É essa conta que pode definir a velocidade de adoção da nova geração de ferramentas aeroagrícolas.
Uma aplicação mais precisa pode reduzir desperdícios. Um sistema de navegação mais eficiente pode diminuir sobreposições. Uma melhor gestão de dados pode reduzir erros. Uma integração entre plataformas pode ampliar a capacidade operacional.
Mas a tecnologia somente se torna vantagem competitiva quando esses ganhos aparecem nos indicadores da empresa.
Essa talvez seja a principal mudança de mentalidade em curso.
A aviação agrícola começa a migrar de uma indústria que vende horas de voo para uma indústria que precisa vender resultado por hectare.
Goianápolis foi mais do que um congresso
É nesse contexto que a dimensão do evento ganha significado.
Cerca de 200 marcas, 18 mil metros quadrados, participantes de pelo menos 12 países e um recorde de trabalhos científicos não são apenas números de uma feira. São sinais de um mercado que continua atraindo empresas, tecnologia, conhecimento e capital.
Mas o dado mais interessante talvez esteja fora da feira.
Enquanto as empresas apresentavam equipamentos e tecnologias em Goianápolis, representantes do setor estavam tentando definir o que a aviação agrícola deverá ser em 2037.
Essa diferença é importante.
Um congresso comercial olha para o próximo produto.
Uma indústria madura começa a olhar para o próximo modelo de negócio.
A Agenda 2037 sugere justamente isso: o setor está tentando preparar uma estrutura na qual tecnologia, pessoas, dados, segurança jurídica e eficiência econômica possam avançar juntos.
Os próximos 80 anos começam agora
O momento histórico reforça a dimensão dessa transição.
Em 19 de agosto de 2027, a aviação agrícola brasileira completará 80 anos. O Congresso AvAg do próximo ano será realizado em Orlândia, São Paulo, como parte das comemorações do aniversário.
A escolha cria uma espécie de marco.
Os primeiros 80 anos foram dedicados à consolidação da aviação agrícola como ferramenta do agronegócio. Os próximos podem ser definidos pela transformação dessa ferramenta em uma plataforma tecnológica integrada.
Não será uma mudança simples.
O setor terá de lidar com custos, crédito, regulamentação, escassez de profissionais especializados, segurança, pressão por sustentabilidade e uma competição tecnológica que está apenas começando.
Mas Goianápolis mostrou que a indústria já entendeu a direção.
A questão agora é velocidade.
Se conseguir combinar a escala que já possui com dados, automação, formação profissional e regras previsíveis, o Brasil poderá transformar uma vantagem histórica — sua enorme agricultura e uma das maiores frotas aeroagrícolas do mundo — em uma vantagem tecnológica.
Essa é a oportunidade.
E também o risco.
Porque, na próxima década, não será suficiente ter aviões capazes de voar mais rápido, transportar mais produto ou cobrir mais hectares.
Será preciso saber onde voar, quando voar, quanto aplicar, qual resultado obter e como provar que ele foi alcançado.
A aviação agrícola brasileira passou décadas construindo uma indústria baseada em aeronaves.
Em Goianápolis, ficou claro que a próxima fase será construída em torno de algo menos visível e potencialmente muito mais valioso:
informação.
E é a capacidade de transformar informação em produtividade que poderá determinar quem ganhará espaço nos céus do agronegócio brasileiro nos próximos dez anos.
Por Claudio Correia | JORNAL CAMPO ABERTO


