Tirso Meirelles, presidente do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp/Senar)
Nas últimas três décadas, o agronegócio brasileiro passou por uma das mais profundas transformações estruturais da sua história. O que antes era marcado por baixa mecanização, limitada produtividade e forte dependência de condições naturais, evoluiu para um sistema altamente tecnificado, integrado e competitivo em escala global. Essa mudança não apenas elevou o Brasil à condição de potência agroalimentar, mas também redefiniu o papel do campo na economia nacional, transformando-o em um dos principais vetores de inovação, geração de renda e segurança alimentar.
A base dessa transformação está no avanço consistente da ciência e da tecnologia. A incorporação de técnicas como o plantio direto, o melhoramento genético, a agricultura de precisão e, mais recentemente, a digitalização do campo — com uso de sensores, inteligência artificial e análise de dados — permitiu ganhos expressivos de produtividade sem a necessidade de expansão proporcional da área cultivada. Esse movimento consolidou um modelo de produção mais eficiente e sustentável, capaz de responder às demandas de um mercado global cada vez mais exigente. Hoje, o Brasil figura entre os maiores produtores de alimentos do mundo, resultado direto desse processo contínuo de inovação.
A produção de grãos saltou de cerca de 80 milhões de toneladas (anos 1990) para mais de 320 milhões de toneladas (2024/25), com crescimento superior a 300% no volume de produção, com o país se consolidando como um dos três maiores produtores de alimentos do mundo. A área plantada cresceu cerca de 70% nessas três décadas, com produtividade de três a quatro vezes a dos anos 90. Frota de máquinas agrícolas mais que triplicou, com crescimento acelerado de tratores de alta potência e colheitadeiras com tecnologia embarcada, levando a redução de até 20% a 30% no uso de insumos em áreas tecnificadas.
Nesse contexto, a Agrishow emerge como um dos principais símbolos e catalisadores dessa evolução. Desde sua primeira edição, em 1994, em Ribeirão Preto, a feira acompanhou — e, em muitos casos, impulsionou — as mudanças no setor. O que começou como um evento de menor escala tornou-se a maior vitrine de tecnologia agrícola da América Latina, reunindo centenas de expositores, milhares de produtores e representantes de diversos países. O volume de negócios ultrapassou R$ 13 bilhões na última edição.
Mais do que um espaço de negócios, a Agrishow consolidou-se como um ambiente estratégico de difusão tecnológica. É ali que se apresentam as mais recentes inovações em máquinas, equipamentos, insumos, softwares e soluções digitais, permitindo que o produtor rural tenha acesso direto ao que há de mais moderno no mundo. A feira também funciona como um ponto de convergência entre indústria, pesquisa e campo, estimulando a troca de conhecimento e acelerando a adoção de tecnologias. Não por acaso, tornou-se um dos principais instrumentos de posicionamento do Brasil como referência global em agricultura tropical e sustentável.
O avanço recente aponta para uma nova etapa dessa transformação: a chamada agricultura 4.0. A integração entre conectividade, inteligência artificial e gestão de dados já permite uma produção mais precisa, preditiva e eficiente, reduzindo custos e impactos ambientais. Tecnologias como drones, automação de máquinas e sistemas de monitoramento em tempo real estão redefinindo o conceito de produtividade no campo, tornando o agro cada vez mais dependente de conhecimento técnico e qualificação profissional.
É justamente nesse ponto que entidades como a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e o Senar assumem papel estratégico. Diante de um setor em rápida transformação, a formação e capacitação da mão de obra tornam-se essenciais para garantir que produtores e trabalhadores consigam acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas. Programas de qualificação, treinamentos técnicos, assistência técnica e gerencial (ATeG) e iniciativas voltadas à inovação têm sido fundamentais para preparar o capital humano do agro. Cursos técnicos online e presencial, além da faculdade, fazem parte da rotina do Senar, que tem investido em tecnologias como o Senar Play para difundir ainda mais a qualificação dos produtores e trabalhadores rurais, a fim de mostrar que o campo é um celeiro de oportunidades e a formação profissional a ferramenta essencial para a transformação que o setor agropecuário necessita.
No caso paulista, a atuação dessas instituições vai além da formação básica. Há um movimento claro de antecipação de tendências, com investimentos em áreas como big data, inteligência artificial e tecnologias estruturantes aplicadas ao campo, com a construção de um centro voltado a aproximar os pequenos produtores das técnicas mais avançadas. Essa visão estratégica busca não apenas manter a competitividade do agro paulista, mas também irradiar conhecimento e inovação para todo o território nacional, fortalecendo a cadeia produtiva como um todo.
O desafio, daqui para frente, não será apenas produzir mais, mas produzir melhor — com eficiência, sustentabilidade e inteligência. A história recente mostra que o agro brasileiro é capaz de se reinventar diante das adversidades. E, nesse processo, a conexão entre tecnologia, conhecimento e articulação institucional continuará sendo decisiva.
A trajetória das últimas três décadas deixa uma lição clara: o sucesso do agronegócio brasileiro não é fruto do acaso, mas de investimento contínuo em inovação e capacitação. E eventos como a Agrishow, aliados à atuação de entidades como Faesp e Senar, seguem sendo pilares fundamentais para garantir que essa evolução não apenas continue, mas se intensifique nos próximos anos.
Fonte: Faesp Senar


