Com estoques elevados e avanço da Índia no mercado global, produtores norte-americanos enfrentam preços em queda e incertezas para 2026.
Os produtores de arroz dos Estados Unidos vivem um dos anos mais difíceis das últimas décadas. Em plena colheita de 2025, os preços da commodity estão 37% abaixo do registrado no início da safra 2024, pressionados pelo avanço da Índia no mercado internacional e por problemas internos de demanda e qualidade do grão estocado.
Pressão histórica sobre os preços
Segundo Keith Glover, presidente da cooperativa Producers Rice Mill e também dirigente da USA Rice, os contratos futuros de arroz na Bolsa de Chicago despencaram de US$ 19 por saca de 45 kg, em maio de 2024, para US$ 12 em maio deste ano. A queda, disse ele, confirma a perda de competitividade do produto norte-americano frente aos concorrentes asiáticos.
Índia assume protagonismo global
O principal fator apontado para a crise é o papel da Índia, que vem batendo recordes sucessivos de produção. Em 2024, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estimou que o país ultrapassou a China como maior produtor mundial de arroz — algo que não acontecia desde a década de 1940.
Com forte política de subsídios, que inclui fertilizantes, energia elétrica, irrigação, crédito e preços mínimos garantidos (MSP), a Índia elevou suas exportações para 25 milhões de toneladas em 2024/25, superando de longe Vietnã e Tailândia, que devem embarcar cerca de 8 milhões de toneladas cada.
Esse cenário derrubou os preços internacionais: o arroz tailandês caiu para US$ 375 por tonelada, o vietnamita recuou para perto de US$ 400 e o indiano é ofertado a US$ 385 — todos patamares muito abaixo dos mais de US$ 600 por tonelada registrados em 2023.
Desafios internos nos EUA
Nos Estados Unidos, a baixa nos preços se soma a dificuldades logísticas. Elevadores de grãos enfrentam longas filas, com produtores tentando escoar arroz armazenado para abrir espaço à nova safra. Parte da carga, porém, tem sido rejeitada por problemas de qualidade e pragas, agravando as perdas.
“É doloroso ver agricultores de ponta produzindo com prejuízo”, relatou um agente do setor imobiliário rural. “O cenário já é negativo há anos, e as projeções para 2026 são ainda piores.”
Tentativas de reação
No campo político, o Congresso aprovou a chamada H.R. 1 — Big Beautiful Bill, que eleva em 20,7% o preço de referência para o programa de apoio Price Loss Coverage (PLC), fixando-o em US$ 16,90 por saca. Os pagamentos, no entanto, só estão previstos para novembro de 2026, o que traz pouco alívio imediato.
Paralelamente, a USA Rice pressiona o governo norte-americano por tarifas de reciprocidade contra importações de arroz de países como Índia e Tailândia, que respondem por 80% das compras anuais de 1,5 milhão de toneladas feitas pelos EUA. Negociações com Japão e Reino Unido também estão em andamento para ampliar a abertura a produtos norte-americanos.
Estoques elevados e incertezas
Relatório recente do USDA estima estoques finais de 39,8 milhões de sacas em 2025 — o maior volume desde 1985, ano em que o governo precisou criar o programa de empréstimos de comercialização para evitar colapso no setor.
Para Glover, a situação é comparável àquela crise histórica. “Estamos vivendo um momento tão grave quanto o dos anos 1980. Precisamos de mudanças estruturais para que os produtores consigam sobreviver”, afirmou.
Tradução e adaptação: Claudio Correia – Jornal Campo Aberto



