Queda nas vendas, ajuste de estoques e pressão sobre fabricantes nos Estados Unidos contrastam com um Brasil mais cauteloso, onde o mercado de máquinas usadas ganha protagonismo diante de juros elevados e margens apertadas no campo
O mercado de máquinas e equipamentos agrícolas dos Estados Unidos atravessa um ciclo de retração após dois anos de forte expansão no período pós-pandemia. Em 2025, a combinação de queda nos preços dos grãos, redução da renda agrícola, custos elevados de financiamento e novas tarifas comerciais pressionou vendas, estoques e margens das principais fabricantes globais.
Gigantes como Deere & Company, CNH Industrial e AGCO Corporation reduziram produção para ajustar estoques diante da demanda enfraquecida. Além disso, o ambiente tarifário imposto em 2025 gerou forte impacto financeiro nas indústrias, cenário que pode começar a mudar após decisão recente da Supreme Court of the United States, que limitou a aplicação unilateral de tarifas comerciais.
Vendas em queda após pico histórico
Dados da Association of Equipment Manufacturers mostram que o setor saiu de um pico histórico em 2021 para uma retração consistente.
Naquele ano, as vendas de tratores ultrapassaram 317 mil unidades e as de colheitadeiras chegaram a 6.278 unidades. Desde então, o movimento tem sido descendente. Em 2025, as vendas de tratores recuaram para 195.857 unidades, enquanto as colheitadeiras registraram queda superior a 35%, fechando o ano com 3.579 unidades comercializadas.
O índice de vendas monitorado pela Creighton University permanece abaixo do nível considerado neutro desde outubro de 2023, indicando contração prolongada no setor.
Estoques ajustados e preços ainda elevados
Para equilibrar oferta e demanda, os fabricantes reduziram a produção. Segundo o United States Census Bureau, os estoques totais de máquinas agrícolas caíram mais de 20% desde o pico registrado em 2022.
No mercado de usados, levantamento da Sandhills Global aponta queda contínua nos estoques de tratores e recuo nos preços pedidos ao longo de 2025. Ainda assim, os valores seguem acima dos níveis pré-pandemia, conforme indicadores do United States Department of Agriculture.
Mesmo com a desaceleração nas vendas, o custo das máquinas permanece elevado, reflexo de encarecimento industrial, gargalos logísticos passados e repasses de custos ao produtor.
Impacto das tarifas
O ambiente comercial também agravou o cenário. A Deere & Company informou ter absorvido cerca de US$ 600 milhões em custos tarifários em 2025. A CNH Industrial registrou queda significativa no resultado operacional do segmento agrícola, enquanto a AGCO Corporation projeta aumento do impacto tarifário em 2026.
A recente decisão da Suprema Corte norte-americana pode abrir espaço para reembolsos e redução de pressões futuras, trazendo algum alívio às fabricantes.
E o Brasil?
Embora o contexto seja diferente, o movimento observado nos Estados Unidos acende um sinal de atenção para o mercado brasileiro, especialmente no segmento de máquinas usadas.
No Brasil, o produtor enfrenta um cenário de margens mais apertadas devido à queda nos preços internacionais das commodities, custos logísticos elevados e maior exposição cambial. Além disso, o ambiente de juros altos nos últimos anos encareceu o crédito rural, tornando a decisão de compra mais estratégica.
Diferentemente do mercado norte-americano — que vive um ajuste cíclico após forte expansão —, o Brasil apresenta um comportamento mais estrutural: maior cautela, preferência por preservar caixa e crescimento do mercado de seminovos como alternativa ao investimento em máquinas novas.
O mercado de usados ganha protagonismo porque:
- Exige menor desembolso inicial
- Reduz o nível de endividamento
- Permite ao produtor manter capacidade operacional
- Oferece oportunidade em momentos de desvalorização de estoques
Ao mesmo tempo, fabricantes instaladas no Brasil também enfrentam desafios como carga tributária elevada, custos industriais e dependência de componentes importados, fatores que limitam reduções expressivas de preços mesmo em ambiente de demanda mais fraca.
Momento de prudência
Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, o setor de máquinas agrícolas entra em uma fase marcada por prudência e seletividade.
Se no mercado americano o eventual alívio tarifário pode trazer algum fôlego às indústrias, no Brasil o equilíbrio entre juros, rentabilidade do produtor e confiança econômica continuará sendo o principal determinante do ritmo de vendas.
Mais do que um simples indicador industrial, o comportamento do mercado de máquinas — especialmente o de usadas — tornou-se um termômetro direto da saúde financeira do agro.
E, neste momento, o sinal é claro: o produtor está mais estratégico, mais cauteloso e cada vez mais atento ao retorno sobre cada investimento feito dentro da porteira.
Por Claudio Correia | Jornal Campo Aberto



