A irrigação por gotejamento vem se consolidando como uma das principais alternativas para o cultivo de cana-de-açúcar, ao aliar eficiência no uso de recursos ao aumento da produtividade. A avaliação é de Marike Brits, da Netafim Southern & East Africa.
De acordo com a empresa, relatos de produtores da província de KwaZulu-Natal (KZN), na África do Sul, apontam que a redução no consumo de energia elétrica e na necessidade de mão de obra estão entre os principais benefícios do sistema.
Eficiência em todas as frentes
Para Wilrik Scheepers, da 4×4 Boerdery, ao sul de Pongola, a irrigação por gotejamento ocupa papel estratégico na gestão das unidades de produção de cana.
“Um dos grandes ganhos é a possibilidade de integrar energia solar ao sistema de irrigação. Como o consumo energético do gotejamento é menor, a energia solar se torna uma alternativa viável. Além de mais eficiente no uso da água, o sistema também reduz a demanda por energia”, explica.
Na mesma linha, Henco Grobler, da Senekal Boerdery, próxima a Mkuze, destaca o impacto econômico da tecnologia. “A irrigação por gotejamento é uma ferramenta essencial para garantir eficiência e rentabilidade em larga escala. Nossa intenção é expandir o sistema para mais áreas, principalmente porque ele reduz significativamente os custos com energia elétrica”, afirma.
O agrônomo Richardt Scholtz, da Netafim em KZN, reforça que a tecnologia permite irrigar áreas maiores com o mesmo volume de água. Segundo ele, o transporte de água é, frequentemente, o componente mais caro da operação de irrigação.
“Com maior eficiência no uso da água, reduz-se a necessidade de transporte e a operação pode ser feita com pressões mais baixas, o que diminui a demanda por bombeamento e, consequentemente, o consumo de energia elétrica”, explica.
Economia e manejo agronômico
Apesar das vantagens, especialistas alertam que a escolha do sistema de irrigação deve ser feita de forma criteriosa. Wilhelm Harris, da Vriendschap Boerdery, ressalta que cada área deve ser analisada individualmente.
Etienne de Beer, especialista do South African Sugarcane Research Institute, concorda e destaca que a adoção do gotejamento depende de diversos fatores, entre eles:
- aumento dos custos de energia
- necessidade de manejo adequado do solo, incluindo controle de erosão e compactação
- disponibilidade e qualidade da água
- acesso a capital
- qualificação da equipe
- suporte técnico para instalação e manutenção
- disponibilidade de equipamentos de qualidade
- condições de produção, como relevo, tipo de solo, formato das áreas e clima
- variedade cultivada
- disponibilidade de mão de obra
O economista agrícola Marco Appel, da Netafim, destaca que a análise de custo-benefício é fundamental para a tomada de decisão entre sistemas como pivô, aspersão ou gotejamento.
“Essa ferramenta permite avaliar a viabilidade econômica do investimento, considerando fatores como tempo de retorno, taxa interna de retorno e custos operacionais ao longo do tempo”, afirma.
Entre os principais pontos a serem considerados estão:
- custo inicial de aquisição e instalação
- custos de manutenção
- consumo e custo de água
- consumo e custo de energia
- custos com mão de obra
Segundo Appel, uma análise completa permite decisões mais assertivas, considerando todo o ciclo de vida do sistema.
Ganhos no campo
Além da economia, o sistema também contribui para o manejo do solo. Charl du Plessis, da Multi Direct Investments, explica que o gotejamento praticamente elimina o escoamento superficial, reduzindo riscos de erosão e perdas de água.
“O sistema também evita o encharcamento e facilita o manejo da zona radicular, mesmo em condições de solo desafiadoras”, afirma.
Scheepers acrescenta que o uso do gotejamento aumenta o controle sobre a aplicação de insumos. “A possibilidade de aplicar fertilizantes com alta precisão, diretamente na zona das raízes, faz uma diferença significativa na eficiência da produção”, destaca.
Mais controle e sustentabilidade
A principal vantagem da irrigação por gotejamento, segundo especialistas, está no controle total sobre a aplicação de água e nutrientes. Com isso, produtores conseguem superar desafios produtivos e aumentar a eficiência, utilizando menos recursos.
O resultado é uma produção mais sustentável e economicamente viável para a cadeia da cana-de-açúcar.
No Brasil, irrigação por gotejamento na cana ainda avança de forma seletiva, mas ganha força com pressão climática
Embora a irrigação por gotejamento já esteja consolidada em importantes polos produtores de cana-de-açúcar ao redor do mundo, no Brasil a tecnologia ainda avança de forma gradual — mas com sinais consistentes de expansão diante de um cenário climático cada vez mais desafiador.
Tradicionalmente, a produção brasileira de cana é baseada no regime de sequeiro, especialmente na região Centro-Sul, onde a distribuição de chuvas historicamente sustentou o modelo produtivo em larga escala. No entanto, esse padrão vem sendo pressionado por eventos climáticos mais extremos e períodos de estiagem mais frequentes, o que tem levado produtores e usinas a reavaliar suas estratégias de manejo.
Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos indicam que a irrigação ainda ocupa uma parcela limitada da área cultivada com cana no país, reforçando o caráter predominantemente extensivo da cultura. Ainda assim, o avanço da tecnologia já é observado em regiões estratégicas.
Pesquisas conduzidas pela Embrapa apontam que a irrigação pode elevar de forma significativa a produtividade dos canaviais, além de contribuir para o aumento da longevidade das soqueiras — fator diretamente ligado à rentabilidade do setor.
Na mesma linha, estudos do Centro de Tecnologia Canavieira indicam que o uso mais eficiente da água e dos insumos tende a ganhar relevância em um cenário de custos crescentes e maior pressão por sustentabilidade.
Assim como observado em países como a África do Sul, o sistema de gotejamento apresenta vantagens agronômicas importantes também nas condições brasileiras. Entre elas, destacam-se a aplicação precisa de água diretamente na zona radicular, a redução de perdas por evaporação e a possibilidade de fertirrigação com alto nível de controle.
Esse conjunto de fatores contribui para uma maior eficiência no uso de recursos, além de favorecer ganhos consistentes de produtividade — especialmente em ambientes com restrição hídrica.
Apesar dos benefícios, a adoção da tecnologia no Brasil ainda enfrenta entraves relevantes. O custo inicial de implantação, a necessidade de maior nível de gestão técnica e as particularidades relacionadas ao tipo de solo, relevo e mecanização exigem uma análise criteriosa por parte dos produtores.
Por isso, a expansão do gotejamento no país tende a ocorrer de forma estratégica, concentrada em áreas com maior risco climático ou maior potencial de resposta produtiva.
Ainda assim, o movimento já é perceptível. Em diferentes regiões produtoras, especialmente no interior de São Paulo, produtores vêm adotando sistemas de gotejamento — inclusive subterrâneos — como forma de garantir estabilidade produtiva e aumentar a eficiência no uso de água e fertilizantes.
A tendência, segundo especialistas e instituições de pesquisa, é que o avanço da irrigação na cana-de-açúcar brasileira ocorra de forma consistente nos próximos anos, impulsionado pela necessidade de produzir mais com menos recursos e pela crescente adoção de tecnologias de agricultura de precisão.
Nesse contexto, a irrigação por gotejamento deixa de ser apenas uma alternativa tecnológica e passa a ocupar um papel estratégico na sustentabilidade e na competitividade do setor sucroenergético nacional.
Fonte: Embrapa; Centro de Tecnologia Canavieira; Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH)
Redação: Jornal Campo Aberto



