Perdas causadas por javalis podem chegar a 40% da produção em áreas afetadas; prevenção é apontada como estratégia mais eficiente para proteger a rentabilidade
Em meio à expectativa de uma das maiores safras de milho da história, produtores brasileiros enfrentam um risco crescente que vai além do clima e do manejo fitossanitário: as invasões de javalis e javaporcos nas lavouras.
O tema foi debatido no quadro Hora da Prosa, do Jornal Campo Aberto, que recebeu Danilo Moreira, analista de mercado da Belgo Arames, para discutir estratégias de proteção e mitigação de perdas.
Prejuízos bilionários e problema subestimado
De acordo com dados recentes da Companhia Nacional de Abastecimento, os prejuízos provocados por animais silvestres têm alcançado cifras bilionárias nos últimos anos. Em áreas com alta incidência, as perdas podem variar entre 30% e 40% da lavoura.
“O javali tem hábito noturno e atua de forma silenciosa. Muitas vezes o produtor só percebe a dimensão do problema quando o dano já está consolidado”, afirma Moreira.
Além do consumo direto do milho — um dos principais alvos da espécie — o pisoteio compromete a estrutura da lavoura, dificulta a mecanização e pode inviabilizar a colheita. Em ataques de grandes bandos, com centenas de animais, os impactos são ainda mais severos.
Cerca não é custo, é investimento
O avanço da espécie no Brasil, inclusive em áreas próximas a centros urbanos, tem ampliado o alerta no campo. Segundo o especialista, o erro mais comum é tratar o cercamento como despesa secundária.
“A proteção da propriedade precisa ser vista como investimento, assim como sementes, fertilizantes ou assistência técnica. O patrimônio está exposto e precisa ser protegido desde o início do ciclo produtivo”, destaca.
O Brasil, por sua dimensão continental, apresenta realidades distintas de clima, relevo e pressão de fauna. Por isso, a escolha do sistema de cercamento deve considerar fatores como:
- Topografia da área
- Categoria animal a ser contida
- Resistência do arame (kgf)
- Camada de galvanização
- Espaçamento entre estacas
- Durabilidade e necessidade de manutenção
“Não existe solução padrão. O que funciona na propriedade vizinha pode não atender outra realidade”, ressalta.
Tecnologia no cercamento
Entre as alternativas apresentadas está a utilização de telas específicas para contenção de javalis, com malhas mais fechadas na parte inferior — região onde o animal exerce maior pressão ao tentar atravessar.
Segundo Moreira, esse tipo de tecnologia permite maior espaçamento entre estacas, reduzindo custos com madeira e mão de obra. Em sistemas bem dimensionados, é possível alcançar produtividade média de instalação de até 100 metros por dia.
Em casos de alta pressão animal, o especialista afirma que o sistema pode ser complementado com fios adicionais ou cerca elétrica, criando barreiras físicas e psicológicas.
Melhor momento para instalar
A recomendação técnica é clara: o cercamento deve ser implantado antes ou no início do plantio.
“Proteger depois que o problema aparece significa correr atrás do prejuízo. A prevenção garante tranquilidade ao longo de todo o ciclo produtivo”, afirma.
Impacto na rentabilidade
Com margens cada vez mais ajustadas, especialmente no milho safrinha, perdas expressivas podem comprometer o resultado financeiro da propriedade.
“Quando o cercamento é bem dimensionado, o produtor percebe o retorno na segurança do ativo e na previsibilidade da produção. É uma decisão estratégica”, conclui.
O avanço dos javalis segue como desafio estrutural para o agro brasileiro. Enquanto medidas de controle populacional são debatidas em outras esferas, no campo a orientação é clara: prevenir é mais eficiente — e menos oneroso — do que remediar.
Redação Jornal Campo Aberto



