Setor pecuário dos EUA critica proposta de ampliar compras e alerta para riscos à competitividade e biossegurança
A semana foi marcada por tensão no setor de carne bovina dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump e lideranças da indústria travaram um novo embate público nas redes sociais e por meio de comunicados oficiais.
Após críticas à sua proposta de ampliar as importações de carne da Argentina, Trump publicou nesta quarta-feira (15) uma série de mensagens no Truth Social defendendo sua política tarifária e cobrando que os pecuaristas reduzam os preços ao consumidor.
“Os criadores de gado, que eu amo, não entendem que o único motivo pelo qual estão indo tão bem, pela primeira vez em décadas, é porque impus tarifas sobre o gado importado — incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil”, escreveu. “Seria bom se entendessem isso, mas também precisam baixar os preços, porque o consumidor é um fator importante no meu pensamento.”
Poucos minutos depois, reforçou:
“As tarifas sobre outros países salvaram nossos criadores de gado!”
As declarações provocaram reação imediata das principais entidades do setor.
American Farm Bureau Federation (AFBF)
O presidente da AFBF, Zippy Duvall, afirmou que as famílias rurais ainda enfrentam altos custos e uma recuperação econômica frágil.
“Os produtores sabem que as famílias americanas preferem carne dos EUA. Se o aumento das importações empurrar os pecuaristas para o vermelho, corremos o risco de ampliar a dependência externa e enfraquecer nossa capacidade de reconstruir o rebanho nacional”, alertou.
National Cattlemen’s Beef Association (NCBA)
A NCBA classificou a proposta como uma “tentativa equivocada de manipular o mercado”.
“O plano de importar carne da Argentina ameaça o futuro das fazendas familiares e pouco influencia no preço final pago pelo consumidor”, afirmou o CEO Colin Woodall.
Woodall destacou ainda que o desequilíbrio comercial entre EUA e Argentina é expressivo e que o país sul-americano enfrenta histórico de febre aftosa.
“Se Trump quer realmente apoiar os produtores americanos, deve abandonar essa ideia e focar em medidas que reforcem a biossegurança e a competitividade do rebanho nacional”, completou.
Iowa Cattlemen’s Association
A associação criticou o tom do presidente e afirmou que suas declarações geram instabilidade no mercado.
“O governo precisa entender que palavras importam. Comentários como esses prejudicam a confiança e dificultam decisões estratégicas que garantem a rentabilidade no longo prazo”, afirmou a entidade em nota.
Análise da Cornell University
Para o pesquisador Adam Murray, da Cornell University, a medida teria impacto limitado.
“Mesmo que o governo argentino quisesse ampliar a oferta, isso levaria pelo menos dois anos. O efeito imediato é psicológico: gera a sensação de que a administração não apoia os produtores americanos”, avaliou.
Segundo ele, a desconfiança entre produtores e grandes frigoríficos — como Cargill, Tyson e JBS — agrava a volatilidade do mercado.
“A indústria é integrada de forma horizontal, e raramente todos os elos da cadeia estão lucrando ao mesmo tempo. Hoje, produtores estão em alta e frigoríficos enfrentam prejuízos — mas a simples declaração política já derrubou os futuros da carne bovina”, explicou.
Tradução: Jornal Campo Aberto
Fonte: Successful Farming



