Dependência global de fertilizantes do Oriente Médio expõe agro a novo choque de custos e possível efeito cascata nos preços dos grãos
A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel acendeu um alerta global que vai muito além da geopolítica. O foco do mercado está no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Por ali passa cerca de 20% do petróleo mundial e aproximadamente um quarto do fertilizante nitrogenado comercializado internacionalmente.
Especialistas já alertam que um conflito prolongado pode provocar uma ruptura relevante no mercado global de insumos agrícolas. Antes mesmo dos ataques, os preços de alguns fertilizantes já operavam próximos das máximas históricas para o período do ano. A preocupação agora é que eventuais bloqueios ou interrupções logísticas no estreito elevem ainda mais as cotações.
O Oriente Médio responde por algo entre 40% e 50% da ureia exportada globalmente. Diferente do petróleo, que conta com reservas estratégicas, o mercado de fertilizantes não possui estoques globais de segurança. A comercialização funciona majoritariamente no sistema “just in time”, com volumes ajustados aos ciclos de plantio. Isso torna o setor extremamente vulnerável a choques geopolíticos.
A alta do petróleo também adiciona pressão. Energia mais cara encarece a produção de fertilizantes nitrogenados — que dependem de gás natural — além de elevar custos de frete, seguro e transporte agrícola. O efeito cascata atinge diretamente o produtor rural.
Nos Estados Unidos, agricultores já enfrentam um ciclo de rentabilidade comprimida após anos de custos elevados e preços agrícolas mais ajustados. Um novo salto nos fertilizantes pode reduzir margens e influenciar decisões sobre aplicação de adubo ou até mesmo área plantada. Por outro lado, a valorização do petróleo tende a puxar o óleo de soja, impulsionado pela demanda por biodiesel.
No Brasil, o impacto pode ser ainda mais sensível. O país é fortemente dependente da importação de fertilizantes. Uma combinação de insumo mais caro no mercado internacional com eventual valorização do dólar pode elevar significativamente o custo de produção da próxima safra. Isso pode pressionar margens no campo e, ao mesmo tempo, gerar reflexos nos preços internos de alimentos.
Por outro lado, a valorização internacional da soja e do milho pode favorecer as exportações brasileiras, mantendo a competitividade no mercado externo. Ainda assim, o cenário é de maior volatilidade e incerteza.
Se o conflito se prolongar por semanas ou meses, os reflexos podem ir além dos fertilizantes. Energia, frete marítimo e cadeias globais de abastecimento podem sofrer impactos adicionais, ampliando o risco inflacionário mundial e afetando diretamente os maiores produtores de grãos do planeta.
O campo observa com atenção. Em um mercado globalizado, uma tensão militar no Oriente Médio pode chegar rapidamente ao bolso do produtor rural no Brasil e nos Estados Unidos.
Jornal Campo Aberto



