Queda nas exportações de carne para a China prepara o terreno para um ano mais desafiador para a indústria de carnes do Brasil.
Por Dayanne Sousa e Hallie Gu
O Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, deve reduzir sua produção após a China — seu principal comprador — impor cotas às importações, marcando mais um revés para empresas do setor que já enfrentam a perspectiva de redução na oferta de gado.
A imposição de uma cota menor do que o volume que o Brasil vinha exportando para a China nos últimos anos obrigará os frigoríficos a cortar a produção em 2026, segundo bancos e consultorias, que já estão revisando para baixo suas projeções. A oferta, que já deveria cair devido à menor disponibilidade de gado, tende a sofrer uma retração ainda mais acentuada do que o previsto.
Essa queda prepara o terreno para um ano mais difícil para a indústria brasileira de carnes, assim como para empresas como JBS NV, Minerva SA e MBRF Global Foods Company SA, que possuem grandes operações no país. O impacto já é visível, com as ações dessas companhias em queda desde o anúncio da China em 31 de dezembro.
“É um retrocesso importante para a indústria de carnes”, afirmou Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, que estima que as restrições chinesas farão o abate no Brasil cair 3,6% em 2026 em comparação com 2025.
Uma queda semelhante deve ocorrer na produção total de carne bovina, segundo Iglesias. Antes do anúncio da China — que, a partir de 1º de janeiro, passou a aplicar uma tarifa de 55% sobre embarques que excederem a cota — a previsão era de uma redução de 2,8% no abate.
Nos últimos anos, as unidades brasileiras dos grandes frigoríficos se beneficiaram dos baixos custos do gado e da forte demanda externa, o que levou as exportações a um recorde em 2025. Agora, a oferta de animais tende a diminuir à medida que os pecuaristas iniciam a recomposição dos rebanhos, o que pode elevar os custos para os frigoríficos.

Esse cenário ocorre em um momento em que consumidores globais sentem cada vez mais o impacto dos preços elevados da carne bovina. As cotas chinesas podem reduzir a demanda, o que poderia permitir preços mais baixos em outros mercados. Ainda assim, a queda na produção brasileira e a oferta mais restrita de gado podem limitar essa redução de preços, especialmente com a demanda permanecendo forte em regiões como os Estados Unidos.
Outro fator relevante é que os altos preços levaram os consumidores brasileiros a migrarem para fontes de proteína mais baratas, segundo o analista do Rabobank, Wagner Yanaguizawa.
“Para o setor de processamento de carnes, as matérias-primas apresentam tendência de alta de preços, e as exportações têm sido uma alternativa para os grandes frigoríficos compensarem a queda do consumo no mercado interno”, disse Yanaguizawa.
As exportações agora podem enfraquecer, especialmente no final do ano, caso as cotas sejam preenchidas nos três primeiros trimestres, afirmou o analista. O Rabobank está revisando sua projeção para a produção de carne bovina no Brasil, com a estimativa anterior de queda de até 6% ao ano provavelmente sendo ajustada para baixo.
Um ponto particularmente preocupante para o Brasil é a forte dependência do mercado chinês, que responde por mais da metade das exportações totais de carne bovina. Embora o país tenha diversificado seus destinos recentemente, os frigoríficos brasileiros ainda não conseguem acessar mercados-chave atendidos por concorrentes como Estados Unidos e Austrália. O Japão, por exemplo, ainda não autorizou a importação de carne brasileira por questões sanitárias, apesar dos esforços recentes para acelerar as negociações.
Demanda chinesa
Além do sistema de cotas limitar o comércio de carne, o consumo chinês de carne bovina também está desacelerando após décadas de crescimento acelerado. Isso ocorre à medida que os consumidores reduzem gastos com refeições fora de casa e cortam despesas com alimentos e bebidas premium, em meio às dificuldades econômicas. O consumo de carne bovina na China deve cair cerca de 2,5% em 2026, para 11,29 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
As importações chinesas de carne bovina de todas as regiões também estão enfraquecendo, depois que produtores locais aumentaram a produção com o apoio do governo, em uma estratégia de maior autossuficiência alimentar. Nos primeiros 11 meses do ano, a China importou 2,59 milhões de toneladas de carne bovina, ligeiramente abaixo do volume registrado no mesmo período do ano anterior.

Desde o anúncio da China, as ações da Minerva acumularam queda superior a 7%, mais do que as de seus concorrentes, devido à maior exposição da empresa ao mercado brasileiro. A JBS, que obtém uma parcela significativa de suas receitas em outras regiões, incluindo os Estados Unidos, registrou queda de cerca de 4% no mesmo período.
Outros países sul-americanos, como Argentina e Uruguai, receberam cotas consideradas menos restritivas, mais alinhadas aos seus volumes habituais de exportação. Por esse motivo, analistas do Itaú BBA afirmaram em relatório de janeiro que parte da carne brasileira pode ser direcionada a esses países, liberando mais oferta local para atender a China. Ainda assim, eles projetam queda de 2% na produção brasileira de carne bovina em 2026.
O envio para outros mercados também tende a gerar margens menores para a indústria, já que a China costuma pagar preços mais elevados pelos cortes de carne que o Brasil exporta, segundo analistas do banco BTG Pactual, em relatório divulgado no início de janeiro.
Fonte: Bloomberg L.P.



