A China voltou a agir com força no mercado internacional de grãos para ração animal. Após problemas de qualidade na safra doméstica de milho provocados por chuvas durante a colheita, importadores chineses intensificaram aquisições de sorgo dos Estados Unidos e cevada da Austrália, elevando preços internacionais e alterando o equilíbrio do comércio global.
Nos últimos três meses, compradores chineses reservaram cerca de 45 navios — ao menos 2,5 milhões de toneladas — de sorgo norte-americano, volume equivalente a três vezes tudo o que havia sido embarcado ao país ao longo de 2025. Ao mesmo tempo, as compras de cevada australiana passaram a girar em torno de 1 milhão de toneladas por mês desde dezembro, praticamente o dobro do ritmo observado no ano passado.
O movimento ocorre em meio à disparada do preço do milho na China, que atingiu cerca de 2.250 yuans (aproximadamente US$ 326) por tonelada — alta anual próxima de 10%. Com isso, a indústria de ração passou a buscar alternativas mais competitivas.
Problemas climáticos reduziram qualidade do milho
Apesar de ter registrado safra volumosa, parte do milho produzido no norte da China perdeu qualidade devido a chuvas prolongadas durante a colheita entre setembro e novembro. Em algumas regiões houve ocorrência de grãos mofados, inadequados para formulação de ração.
O país trabalha com um sistema de cotas de importação: apenas 7,2 milhões de toneladas de milho podem entrar com tarifa reduzida de 1%. Acima disso, a tarifa sobe para 65%. Já sorgo e cevada não possuem restrições — fator que explica a forte substituição nas compras.
Preços internacionais reagiram
A demanda chinesa sustentou cotações nos países exportadores:
- A cevada australiana subiu quase 10% em três meses.
- O sorgo FOB no Golfo do Texas avançou cerca de 12,6% desde o fim de outubro.
Além disso, a retomada do diálogo comercial entre Donald Trump e Xi Jinping ajudou a reativar compras agrícolas chinesas nos Estados Unidos, ampliando a competitividade norte-americana no mercado internacional.
Reflexos para o Brasil
O novo cenário impacta diretamente o posicionamento brasileiro nas exportações de grãos.
Sustentação dos preços
O aumento da demanda global por substitutos do milho tende a evitar quedas acentuadas nas cotações internacionais. Para o produtor brasileiro, isso significa mercado mais firme, especialmente em momentos de grande oferta.
Oportunidade para o milho
Caso persistam problemas de qualidade na produção chinesa, o Brasil pode ampliar embarques — sobretudo na janela da safrinha — se houver disponibilidade de cotas ou necessidade de recomposição de estoques.
Concorrência maior na soja
A reaproximação comercial sino-americana aumenta a disputa com os EUA. A tendência é de maior alternância de origens: Brasil predominando no primeiro semestre e Estados Unidos no período pós-colheita norte-americana.
Espaço para o sorgo brasileiro
A busca chinesa por diversificação de fornecedores pode abrir nichos para o sorgo nacional, principalmente em operações pontuais e contratos oportunísticos.
Qualidade passa a ser fator estratégico
Mais do que uma questão de volume, o episódio evidencia o peso crescente da qualidade e da regularidade de oferta no comércio internacional. Eventos climáticos passaram a influenciar rapidamente fluxos globais, favorecendo fornecedores capazes de garantir padrão sanitário e previsibilidade.
Nesse contexto, o Brasil consolida sua posição como fornecedor estratégico — mas dependerá cada vez mais de logística eficiente, competitividade de preços e estabilidade produtiva para capturar as oportunidades.
Análise de Mercado | Redação Jornal Campo Aberto



