O Dado Central: IAVAG Fecha 2025 em Terreno Negativo
A deflação acumulada de -2,7% no IAVAG em dezembro de 2025 representa um dado relevante para o setor aeroagrícola brasileiro. Após um ano de 2024 marcado por inflação próxima de +18% no índice, a reversão para terreno negativo sugere, à primeira vista, um cenário de acomodação de custos e maior previsibilidade operacional. Contudo, quando analisamos o ambiente macroeconômico nacional e internacional de forma integrada, percebe-se que essa deflação pode esconder riscos importantes para 2026.
Câmbio: Queda Pontual, Projeção Elevada
No campo cambial, o dólar iniciou o dia 09 de fevereiro de 2026 negociado em torno de R$ 5,21, acumulando queda de -0,51% na semana, movimento influenciado por ajuste de posições antes de falas do presidente do Banco Central e por um ambiente externo mais favorável às moedas emergentes, com enfraquecimento do DXY. Entretanto, o Boletim Focus mantém a projeção de câmbio em R$ 5,50 ao final de 2026, sinalizando que, apesar do alívio de curto prazo, o cenário-base continua sendo de dólar estruturalmente elevado. Para o IAVAG, isso é crucial, pois peças, insumos e componentes com formação de preço direta ou indiretamente dolarizada continuam expostos à volatilidade cambial. A deflação de 2025 ocorreu em um momento de acomodação do dólar; caso a moeda retorne à faixa projetada, o repasse pode reverter rapidamente a trajetória do índice.
Política Monetária no Brasil: Selic em 15%
No campo monetário doméstico, o Copom manteve a Selic em 15,00% ao ano na reunião de 27–28 de janeiro de 2026. Embora o mercado projete taxa de 12,25% ao final de 2026, o patamar atual ainda é altamente restritivo. Isso significa que, mesmo com o IAVAG acumulando -2,7%, o custo do capital de giro permanece elevado, o financiamento de aeronaves torna-se mais oneroso e a rolagem de dívidas pressiona as margens das empresas. Em um setor cujo ativo principal pode ultrapassar US$ 1,5 milhão por aeronave, a combinação de juros elevados e câmbio volátil pode neutralizar completamente o ganho obtido via deflação operacional.
Inflação e Juros nos EUA: Impacto sobre o Dólar
No cenário internacional, a inflação nos Estados Unidos acumulou 2,7% em 12 meses, com núcleo em 2,6%, segundo o Bureau of Labor Statistics. O Federal Reserve manteve a taxa dos Fed Funds entre 3,50% e 3,75%, sinalizando postura dependente de dados. A manutenção de juros elevados nos EUA sustenta o dólar globalmente e encarece o financiamento internacional. Caso o CPI volte a acelerar, o Fed pode prolongar o aperto monetário, reforçando o dólar e ampliando a pressão sobre moedas emergentes como o real. Assim, o ambiente externo continua sendo vetor de risco para o câmbio brasileiro e, consequentemente, para o IAVAG.
Crescimento e Emprego nos EUA
A economia americana apresentou crescimento robusto de 4,4% no terceiro trimestre de 2025, enquanto o mercado de trabalho mostrou geração mais fraca de vagas em dezembro (+50 mil), com desemprego em 4,4%. Esse cenário híbrido indica desaceleração moderada, mas não recessão. Crescimento forte nos EUA tende a sustentar commodities, mas juros elevados mantêm a pressão cambial. O setor aeroagrícola brasileiro está exposto a ambas as variáveis.
PIB e Mercado de Trabalho no Brasil
No Brasil, o PIB cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre de 2025, sinalizando perda de fôlego da atividade econômica. A projeção do Focus aponta crescimento de 1,8% para 2026, caracterizando cenário de expansão moderada. O mercado de trabalho segue aquecido, com taxa de desocupação de 5,6%, a menor da série histórica iniciada em 2012. Apesar disso, a taxa de subutilização permanece em 13,9%, revelando ainda alguma folga estrutural. O INPC fechou 2025 em 3,90%, com avanço de 0,21% em dezembro, indicando que a inflação, embora controlada, não está completamente eliminada.
Energia e Combustíveis: Volatilidade Persistente
No campo energético, o heating oil recuou para US$ 2,38 por galão (-1,56%), enquanto o petróleo Brent permanece na faixa de US$ 67 por barril, sujeito a tensões geopolíticas. O etanol anidro, por sua vez, subiu 0,51%, atingindo R$ 3,49 por litro nas usinas de São Paulo. O IAVAG se beneficiou da acomodação recente dos derivados, mas o cenário segue altamente volátil. Oscilações do petróleo e do câmbio podem reverter rapidamente qualquer alívio no componente energético.
Ritmo de Crescimento do Setor: Desaceleração
O setor aeroagrícola cresceu 7,2% em 2024, mesmo enfrentando inflação acumulada próxima de 18% no IAVAG. Já em 2025, o crescimento foi de 5,2%, indicando desaceleração no ritmo de expansão. Esse movimento revela mudança de ciclo econômico: a atividade continua crescendo, mas em intensidade menor, combinando maior cautela nos investimentos com ambiente macroeconômico restritivo.
Inadimplência Regional e Pressão Financeira
Além disso, o Rio Grande do Sul enfrenta aumento da inadimplência rural após eventos climáticos severos, o que pressiona o fluxo de caixa das empresas prestadoras de serviço. Com Selic em 15%, atrasos de pagamento ampliam o custo financeiro e reduzem margens operacionais. A deflação de -2,7% no IAVAG não compensa automaticamente esse risco.
Deflação Pontual, Risco Estrutural
O quadro consolidado revela um paradoxo. O índice de custos apresentou deflação anual de -2,7%, mas o ambiente macroeconômico permanece marcado por juros elevados, projeção cambial alta, crescimento moderado, volatilidade energética e incerteza internacional.
Temos simultaneamente:
IAVAG 2024: +18%
IAVAG 2025: -2,7%
Crescimento do setor em 2024: 7,2%
Crescimento do setor em 2025: 5,2%
Selic: 15%
Projeção de câmbio para 2026: R$ 5,50
A melhora no IAVAG decorre, em parte, da acomodação de variáveis conjunturais, não de uma redução estrutural de risco.
A leitura isolada do -2,7% pode sugerir conforto operacional. A leitura integrada dos dados macroeconômicos revela que o risco estrutural permanece elevado.
E, no setor aeroagrícola, risco estrutural importa mais do que variações pontuais no índice de custos.
Sobre o autor
Economista (Corecon N8905), Administrador e Tecnólogo em Marketing. É Doutor em Administração pela UNISINOS, Mestre em Indústria Criativa, especialista em (MBA) Gestão Empresarial pela Universidade Feevale. Atua como COO – Diretor Operacional no SINDAG – Entidade que representa Empresas de Aviação Agrícola em 23 Estados Brasileiros, na área de Relações Institucionais e governamentais (Marketing institucional), interagindo com mais de 160 entidades do agronegócio brasileiro, além das empresas ligadas ao setor do Uruguai, Argentina, Paraguai e Estados Unidos. Também atua em projetos de qualificação do setor ministrando cursos e palestras sobre gestão estratégica e de marketing. É Sócio | Consultor em Gestão Empresarial pela GR – Gestão para Resultado, atuando em Gestão Estratégica, Marketing e formação de grupos cocriativos. As empresas que já atuou e atua são do setor de calçados, da saúde e metalmecânico. Além disso é professor convidado, desde 2018 nas disciplinas de Gestão Estratégica e Liderança na Pós Graduação da Faculdade IENH (Fundação Evangélica de Novo Hamburgo). Atuou como Conselheiro do SENAI – Gustavo Copé em Novo Hamburgo e como profissional convidado, participou da organização de 43 eventos de negócios nacionais e internacionais sendo eles: feiras de exposição, rodadas de negócios e lançamento de produtos ligados aos setores de aviação agrícola, metalmecânico e moda. Atualmente coordena o MBA Gestão, Inovação e Sustentabilidade Aeroagrícola que já formou 85 alunos de mais de 10 Estados Brasileiros. É autor do livro Manual da Aviação Agrícola – BPA e Coautor do Livro Manual Teórico e Prático da Atividade Aeroagrícola no Brasil.



