A verdade na linha de fábrica.

Desde muito tempo o conhecimento, a correta informação de um indivíduo acerca da realidade pode ter um valor atribuído por uma decisão estabelecida por outra pessoa, ou um grupo, detentor do poder político ou econômico, que estabelece o que deve ou não ser conhecido, o que deve ser valorado como conhecimento pelo sujeito que recebe a informação alterada, errada, e sofre os efeitos dessa manipulação instaurada. Dito de forma simplificada, no papel de administradores de uma estrutura, determinados grupos ou pessoas propalam suas concepções da realidade, manipulando a verdade e formando massas de manobra. O valor da verdade das informações, deste modo, é estipulado arbitrariamente!

 

A rápida informatização da sociedade que, a princípio, sugere uma maior capacidade do indivíduo formar opinião de qualidade (baseada na rápida busca de elementos verossímeis), em verdade piorou a situação.  Por que isso? O que necessita ser entendido é que, em movimento paralelo a evolução tecnológica, evoluíram também os mecanismos de manipulação. Some-se a isso o fato de que as pessoas, outrora meramente manipuladas, agora podem ter a sensação que são protagonistas nesse processo, graças ao poder de criar espaços virtuais nos quais têm a sensação de estar no comando das suas ações.

 

Como prova da evolução dos mecanismos de manipulação pode-se citar “organizações” que têm por objetivo criar ondas de informação falsas, agregar indivíduos ou setores a movimentos e causas desleais, entre outros. Tudo lastreado no imediatismo, na sensação de que, os indivíduos, por estarem recebendo a informação de fontes não oficiais ou de amigos, estão frente a mais impávida verdade sobre os fatos. Cria-se na mente de quem recebe a informação uma sensação similar àquela que experimentamos quando pedimos uma informação ou opinião de um grande amigo, como se esta condição fosse suficiente para que o conceito supere o de um especialista no assunto. Quantas pessoas deixam de lado uma opinião médica, por exemplo, para adotar uma postura preconizada por um amigo, pela simples razão deste ser um ente mais próximo e “incapaz” de lhe querer mal ou emitir noção incorreta. O conhecimento popular é acrítico e, como tal, permeado de falhas na transmissão e recepção da informação. O senso popular aceita algo como verdade apenas por ser provindo de uma fonte “confiável” até que outra “mais confiável” forneça nova versão. Pois bem, a possibilidade de veicular informações em altíssima velocidade, associado a esta “sensação de verdade” que a transmissão não oficial e provinda de contatos pessoais nos causa, criou um terreno fértil para o fortalecimento da alienação das massas.

 

Em síntese, aquilo que poderia ter sido um instrumento de crescimento da consciência coletiva, revelou-se, por manipulação e interesses, uma fantástica ferramenta de demência coletiva.  Os valores são difundidos e criados como mercadoria para serem vendidos a segmentos da população que, por sua vez, os assumem e reproduzem, acreditando ser protagonistas desses novos tempos. Certamente, tais grupos e pessoas acreditam em frases proféticas tais como: “Finalmente, as barreiras, que separavam as classes foram rompidas! Hoje, as massas têm voz e detêm o poder de decidir o seu futuro”. Puro engodo! Impossibilitados de discernir sobre os fatores que o fazem um elemento manobrável, o indivíduo limitado pela alienação, apenas reproduz inconscientemente o que desejam que ele faça.

 

Esta introdução serve para, por fim, expressar que, cada vez mais, estaremos sujeitos às distorções e dificuldades representadas pela facilidade de difusão de notícias e fatos inexistentes. Cada vez mais seremos vítimas desta realidade virtual, resultante da falta de senso moral, do desejo de poder, da ignorância e desejos de realização pessoal e autonomia que está sendo difundida como uma possibilidade atingível a qualquer um, ao alcance de uma simples postagem no face, whatsapp ou qualquer outro mecanismo de contato social por meios digitais. Um novo estado de manipulação coletiva que pasteuriza as iniciativas, criando uma concepção de que a verdade agora circula, finalmente pura e livre, pelos meios sociais. Contudo, a verdade é que o conhecimento, a verdade ou a moral equilibram-se numa linha cada vez mais tênue que separa o útil do inútil, o lixo do luxo. Estamos vivendo numa sociedade onde o novo, o último e sensacionalista fato, assume caráter de verdade. Cada vez mais somos reféns de um mundo pré-fabricado.

 

Marcelo Drescher

Especial para o Jornal Campo Aberto

Sobre o autor:

Engenheiro Agrônomo
Formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, exerceu a atividade de agrônomo prestando assistência técnica a produtores rurais. Elaborou projetos de plantio de soja, milho e arroz na região central do Rio Grande do Sul.

Mestre em Fertilidade dos Solos
Título obtido na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através da defesa de tese que avaliou a fertilidade dos solos do estado do Rio Grande do Sul e a demanda de fertilizantes das principais culturas deste

Especialista em Ergonomia
Como especialista em ergonomia, título obtido no Instituto de Administração Hospitalar e Ciências da Saúde, presta assessoria a empresas na avaliação, adequação e segurança de postos de trabalho. Na área da aviação realizou avaliação ergonômica das condições ambientais em cabines de aeronaves agrícolas

Gestor de Segurança Operacional
Habilitado pela ANAC, elaborou manuais de gestão de segurança operacional e presta assessorias a empresas na detecção, avaliação e minimização de riscos operacionais. Ministra palestras de segurança operacional e gerenciamento de equipes.

Escritor
Articulista de jornais por mais de 17 anos, hoje redige para a revista Ag Air Update (periódico especializado em aviação agrícola).Em 2012 publicou o livro Manual de Piloto Agrícola, contendo todo o conteúdo e informações necessárias à formação de pilotos agrícolas e esclarecimento de qualquer interessado na atividade.

Professor universitario
Como professor universitário, ministrou disciplinas nas áreas de informática, matemática e biologia. Dedicou-se também ao ensino de técnicas de conservação ambiental e manipulação de resíduos em cursos de pós graduação. Visando a divulgação da aviação agrícola, realiza palestras para estudantes de graduação de pós graduação sobre a tecnologia aeroagrícola.

Assessor ambiental
Implantou e coordenou projetos de avaliação de impacto, recuperação, avaliação e gerenciamento ambiental para empresas. Na aviação presta assessoria na minimização e mitigação de riscos e impactos ambientais decorrentes da atividade.

Instrutor teórico
Há mais de 19 anos ministra instruções teóricas nos cursos de formação de pilotos agrícolas. Ainda, na área de aviação agrícola, realiza treinamentos para engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas ou agropecuários, visando a especialização destes profissionais na área aeroagrícola.

Pesquisador
Desenvolveu pesquisas em solos e desenvolvimento de plantas em universidades. Na aviação, procede testes de deposição e análise de desempenho de equipamentos de pulverização e dispersão.

Palestrante
Professor universitário, instrutor teórico e palestrante, profere palestras técnicas, motivacionais e de desenvolvimento de equipes.

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