Debaixo de limoeiro…

“Debaixo de limoeiro não cai laranja”. Assim resumi a experiência vivida em audiência pública, na cidade de Americana, que discutia a proibição da aviação agrícola. Não se pode esperar que mentores, defensores e integrantes de grupos dominados por ideologias tenham sequer vontade de ouvir argumentações diversas do seu ponto de vista. O que dizer, então, de escutar, interpretar e debater, de modo sensato, opiniões contrárias às suas.

 

Ideologia deveria ser entendida como o conjunto de ideias e doutrinas de um indivíduo ou grupo, visando à orientação de suas ações. Porém, na prática, ideologia é um fenômeno complexo que encobre a verdade, privilegiando a aparência das coisas. Em síntese, as ideologias não buscam a verdade, mas o poder. Manipulam a realidade, pinçando somente o que lhes é útil, compondo uma argumentação baseada em meias-verdades com vistas a atender seus interesses. As massas são estimuladas a participar ativamente de “lutas” que, aparentemente visam o bem comum, mas que, sob olhar crítico, revelam-se inócuas ao coletivo, servindo apenas para o reforço daqueles que já estão no poder.

 

Assim foi a experiência em Americana. Uma audiência mal conduzida e tendenciosa. Momento que visava atender exclusivamente aos interesses daqueles que intentam dissimular e ocultar as divisões sociais e políticas, revestindo-as de luta de classes. Porém, tenho certeza, serviu a algo mais profundo e produtivo: À união e fortalecimento do setor aeroagrícola. Detenho convicção de que a tecnologia de pulverização aérea não é perfeita e tampouco infalível, Contudo, posso afirmar que esta é a melhor opção em pulverização quando se espera agilidade, uniformidade de deposição, segurança e eficiência.

 

A aviação agrícola brasileira possui a segunda maior frota do mundo, o que expressa sua relevância ao sistema produtivo. Os pilotos agrícolas deste país recebem treinamento em escolas supervisionadas pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Agência Nacional de Aviação Civil, submetendo-se, desde o princípio de sua formação, a um treinamento extenso e minucioso. As empresas de aviação agrícola possuem equipes formadas por profissionais especializados nessa atividade, que atuam visando potencializar a pulverização e promover a segurança, saúde humana e preservação ambiental. A aviação agrícola brasileira possui, e atende, à uma legislação específica que, dentre outras finalidades, visa o menor impacto ambiental. Ademais, todo operador aeroagrícola está submetido à legislação e submete-se à  fiscalização das autoridades que compõem o sistema de proteção ambiental brasileiro, em nível federal, estadual e, na sua existência, municipal.

 

Porém, tudo isso é desconsiderado ou ignorado quando encontramos pela frente debatedores que privilegiam ideologias. Por certo, dentre estes existem indivíduos qualificados. Contudo, toda argumentação elaborada com o caráter único e exclusivo de defender uma causa que não leva em conta nada mais do que a satisfação de um sistema de ideias que intenta levar pessoas a crer que as desigualdades sociais, políticas e econômicas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais em termos de talentos, inteligência, capacidade ou força de vontade daqueles que não esperam que o mundo lhes oferte condições à sobrevivência, é falha e leva o seu condutor ao caminho do radicalismo.

 

Esse fundamentalismo ecológico  tem sido o motor de inúmeros movimentos e organizações mundo afora. Todavia, em todos os locais por onde ocorreu acabou por sucumbir à necessidade da evolução tecnológica e científica que, em verdade, sustenta e desenvolve o planeta. Tecnologia, de modo diverso ao que pretendem dizer tais grupos, não é sinônimo de destruição. Tecnologia agrícola existe para que a humanidade possa, a cada dia, sustentar uma população em crescimento. Tecnologia aeroagrícola existe para que se possa potencializar o combate a vetores de doenças, às operações de semeadura, o uso de fertilizantes e à pulverização de substâncias químicas que, em síntese, resultam no aumento da produtividade agrícola.

Como uma máscara, a ideologia recobre o conhecimento, retardando-o. Tenho  certeza que muitas das pessoas presentes a referida audiência realmente acreditavam na luta por uma causa justa e que estavam ali para defender suas vidas. Porém, o que realmente defendiam eram os interesses de poucos em sua luta pela manutenção no poder. Em relação aos demais presentes, aqueles que defendiam proposta diversa, posso afirmar que enquanto resumirem sua presença ao sucesso que obtiveram em demover tais grupos de suas doutrinas, jamais restarão satisfeitos. Não se pode esquecer que as ideias reinantes nestes grupos são potencialmente sedutoras para os que nelas creem e, portanto, motivos à perceptível paixão por seus líderes messiânicos. Na verdade, tais grupos não agem como cidadãos sensatos, mas como torcidas organizadas que ao invés do debate racional preferem bradar palavras de ordem.

 

Marcelo Drescher

Especial para o Jornal Campo Aberto

Sobre o autor:

Engenheiro Agrônomo
Formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, exerceu a atividade de agrônomo prestando assistência técnica a produtores rurais. Elaborou projetos de plantio de soja, milho e arroz na região central do Rio Grande do Sul.

Mestre em Fertilidade dos Solos
Título obtido na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através da defesa de tese que avaliou a fertilidade dos solos do estado do Rio Grande do Sul e a demanda de fertilizantes das principais culturas deste

Especialista em Ergonomia
Como especialista em ergonomia, título obtido no Instituto de Administração Hospitalar e Ciências da Saúde, presta assessoria a empresas na avaliação, adequação e segurança de postos de trabalho. Na área da aviação realizou avaliação ergonômica das condições ambientais em cabines de aeronaves agrícolas

Gestor de Segurança Operacional
Habilitado pela ANAC, elaborou manuais de gestão de segurança operacional e presta assessorias a empresas na detecção, avaliação e minimização de riscos operacionais. Ministra palestras de segurança operacional e gerenciamento de equipes.

Escritor
Articulista de jornais por mais de 17 anos, hoje redige para a revista Ag Air Update (periódico especializado em aviação agrícola).Em 2012 publicou o livro Manual de Piloto Agrícola, contendo todo o conteúdo e informações necessárias à formação de pilotos agrícolas e esclarecimento de qualquer interessado na atividade.

Professor universitario
Como professor universitário, ministrou disciplinas nas áreas de informática, matemática e biologia. Dedicou-se também ao ensino de técnicas de conservação ambiental e manipulação de resíduos em cursos de pós graduação. Visando a divulgação da aviação agrícola, realiza palestras para estudantes de graduação de pós graduação sobre a tecnologia aeroagrícola.

Assessor ambiental
Implantou e coordenou projetos de avaliação de impacto, recuperação, avaliação e gerenciamento ambiental para empresas. Na aviação presta assessoria na minimização e mitigação de riscos e impactos ambientais decorrentes da atividade.

Instrutor teórico
Há mais de 19 anos ministra instruções teóricas nos cursos de formação de pilotos agrícolas. Ainda, na área de aviação agrícola, realiza treinamentos para engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas ou agropecuários, visando a especialização destes profissionais na área aeroagrícola.

Pesquisador
Desenvolveu pesquisas em solos e desenvolvimento de plantas em universidades. Na aviação, procede testes de deposição e análise de desempenho de equipamentos de pulverização e dispersão.

Palestrante
Professor universitário, instrutor teórico e palestrante, profere palestras técnicas, motivacionais e de desenvolvimento de equipes.

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