Canga do tempo

Eu aprendi a contar histórias com meu pai e meu avô. Aliás, muitas histórias que escrevo, nem são minhas – foram eles que viveram e repetiram tantas vezes, que em alguns momentos duvido que não estive lá, com os dois. Esse causo, por exemplo, quem contou foi meu pai. Vai ouvindo…

Na década de 70, meu pai tinha voltado para casa, em Minas Gerais, para as festas de final de ano. Ele era estudante e meu avós moravam no município de Iturama, no Córrego da Lama. Logo depois da sua chegada, meu avô precisou viajar e deixou meu pai encarregado de receber um gado que seria entregue, ali no sítio, por um amigo. Ele deveria receber o gado, conferir o número de reses e depois, levar os animais na “aguada”, uma represa que ficava no fundo da casa.

 

E assim foi feito: gado recebido e conferido, ele foi tocando os animais até a dita aguada. Perto de onde o gado ia passando, uma estrada dava acesso às fazendas vizinhas. O rebanho ali era constituído quase que só de vacas destinadas a engorda para o abate. Mas, no meio, tinha uma velha junta de bois de carro: dois bois comuns, mestiços, sem raça definida. Um amarelo e o outro baio.

 

Quando aqueles dois bois carreiros iam se aproximando da água, foi passando na estradinha um carro de boi cantador, eixo de pau, carregado de madeira para cerca. O carro ia pesado, cantando alto. Ao ouvir o som dos carros, os dois bois pararam na hora. Torceram a cabeça em direção à estrada de onde vinha o som e ficaram ali, ouvindo o carro cantar até sumir lá longe. Só então voltaram e caminharam até a água da represa.

 

Só depois de adulta entendi a tristeza dessa história: os dois bois, escutando o carro lá longe, lembrando de tanta luta, tanta ponta de ferrão no corpo, tanta coragem. Meu pai contava que alguns animais, ao puxarem o carro, chegavam a ajoelhar de tanta força, tudo para transportar o “progresso” da época. E, para no final da vida, receber como aposentadoria um lugar no frigorífico.

 

Jair Rodrigues dizia que “gado a gente marca. Tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente”. Eu também acho. Gente é diferente. O homem do campo é diferente. Faz força, luta, leva ferroada. Mas se levanta, de novo e de novo e de novo. Vez ou outra para, para ouvir o passado, mas é só para lembrar o aprendizado e retomar a caminhada. Fácil não é. Mas a canga do tempo vai dando a direção certa. Ainda temos muita estrada pela frente este ano. Resta, ao homem do campo, encher o carro de esperanças para cantar cada vez mais alto…

 

Flaviana Ribeiro

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